Quanto tempo o médico gasta com burocracia — e o que isso custa ao paciente
Eu não precisava de um estudo para saber que gasto mais tempo com burocracia do que gostaria. Mas os estudos existem, e são piores do que a intuição. Uma pesquisa de observação direta com médicos ambulatoriais nos Estados Unidos mediu que, para cada hora de contato com o paciente, o médico gastava quase duas horas em sistema eletrônico e trabalho de mesa, e ainda uma a duas horas por noite fora do expediente, segundo o estudo de Sinsky e colaboradores publicado no Annals of Internal Medicine em 2016, com 57 médicos observados por 430 horas. Não conheço medição equivalente feita no Brasil com o mesmo rigor; se você conhece, me escreva.
O que eu conheço é a minha rotina. A consulta dura vinte, trinta minutos. Depois dela vêm a evolução, o pedido de exame, a receita, o atestado, a guia do convênio, a autorização do procedimento, o relatório para a operadora, a conferência do demonstrativo de pagamento semanas depois. Cada um desses documentos repete dados que eu já sei: nome, CPF, convênio, CID. Nenhum deles é medicina. Todos são obrigatórios.
O custo mais óbvio é o tempo. Horas que não voltam, muitas delas à noite ou no fim de semana. Mas o custo que me incomoda é outro: a atenção. Quando parte da consulta é gasta preenchendo tela, a parte que sobra para olhar o paciente, ouvir e examinar fica menor. A burocracia não compete só com o meu descanso; compete com o cuidado.
Há ainda um terceiro custo, silencioso: o erro. Dado digitado cinco vezes é dado errado em alguma delas. O CPF trocado vira glosa, a guia incompleta vira retrabalho, o exame não registrado vira exame repetido. A burocracia mal feita produz mais burocracia.
Durante anos tratei isso como inevitável, o preço de exercer a profissão. Mudei de ideia quando percebi que quase toda essa carga vem de uma única causa: a informação nasce em um lugar e precisa ser copiada para vários outros. Se ela nascesse uma vez, no momento do atendimento, e daí alimentasse tudo o que depende dela, a maior parte do trabalho de mesa simplesmente não existiria.
Foi essa a pergunta que me levou a construir o Gorgen. Não "como tornar a burocracia mais rápida", mas "quanto dela precisa existir". A resposta, na minha experiência, é: bem menos do que fazemos hoje. E cada hora devolvida ao médico é uma hora que pode voltar para onde ela pertence.
Este conteúdo é informativo e destinado a profissionais de saúde e gestores de consultório. Não constitui orientação clínica, jurídica ou contábil.