Quando a clínica fecha as portas, de quem são os prontuários?
De um dia para o outro, sem aviso: uma rede de clínicas — não importa qual, porque o caso se repete por aí — fecha as portas, dispensa os médicos e tranca o acesso aos sistemas. Os colegas que atenderam ali por anos chegam para trabalhar e encontram a porta fechada. Com ela, todo o histórico dos seus pacientes. É um cenário ilustrativo, mas qualquer médico reconhece o risco.
Eu imagino os dias seguintes porque conheço essa rotina. O telefone dos médicos não para. Pacientes ligam aflitos: "Doutor, e agora? Onde estão meus exames? Como o senhor vai continuar meu tratamento?" O médico, que conhece aquela história clínica, de repente não consegue acessá-la. As evoluções que ele escreveu, os resultados que ele interpretou, as condutas que ele planejou — tudo trancado atrás de um login que parou de funcionar.
Esse tipo de episódio expõe uma fragilidade silenciosa: na maioria das plataformas, o prontuário pertence à instituição, não ao médico nem ao paciente. Enquanto a porta está aberta, isso passa despercebido. Quando ela fecha, o profissional descobre que era apenas inquilino do que ele mesmo produziu — e o paciente, dono legítimo daquela informação, fica sem ela.
A lição é dura, mas clara, e eu a levo a sério como médico: o profissional precisa de acesso livre e sem burocracias aos dados dos pacientes que atendeu. Não como favor de uma empresa, mas como condição básica para exercer a medicina com responsabilidade. Continuidade de cuidado não combina com dependência — ninguém deveria ficar refém de uma clínica ou de um hospital para reencontrar o que ele próprio escreveu.
A informação clínica deve seguir a pessoa, não o prédio. Em uma plataforma centrada no paciente e independente da instituição, o médico mantém o vínculo com o histórico que construiu e o paciente carrega a saúde consigo. Se uma clínica fecha, o cuidado não fecha junto. Foi essa convicção que me fez construir o Gorgen — para que ninguém precise dizer a um paciente: "cuidei de você por anos, mas não tenho mais como acessar a sua história".
Este conteúdo é informativo e destinado a profissionais de saúde e gestores de consultório. Não constitui orientação clínica, jurídica ou contábil.