Os dados de saúde são do paciente — não da clínica
Toda vez que eu atendo, eu gero informação: a evolução da consulta, o resultado de um exame, uma prescrição, uma impressão clínica. Essa informação descreve a saúde de uma pessoa — e, por princípio, pertence a ela. A Lei Geral de Proteção de Dados coloca o titular, o paciente, no centro. Mas, na prática, quase nunca é isso o que acontece.
Na maioria dos sistemas, o prontuário pertence à instituição. Enquanto a clínica está de portas abertas, ninguém percebe. Quando ela fecha — ou simplesmente encerra um contrato —, o médico descobre que era apenas um inquilino dos próprios registros. E o paciente, dono legítimo da informação, fica sem ela: muda de cidade, troca de profissional, pede uma segunda opinião, e o histórico ficou para trás.
Para mim, isso sempre foi uma distorção. Quem gera o dado é o médico; quem é dono é o paciente; mas quem se apropria, com frequência, é a instituição. Esse modelo coloca a estrutura acima da pessoa. Ele dificulta a portabilidade, fragiliza a autonomia do paciente e transforma a história de saúde — que deveria acompanhar alguém pela vida inteira — em ativo preso a um prédio.
A alternativa é inverter a lógica: uma plataforma centrada na pessoa, não na clínica nem no hospital. Um lugar onde o histórico pertence ao paciente, viaja com ele e não depende de onde o atendimento foi feito. O médico continua autor das suas evoluções; o paciente decide quem acessa o quê; e a informação deixa de ser refém de qualquer instituição.
Cuidado de verdade é contínuo — não começa nem termina nas paredes de um consultório. Foi por isso que construí o Gorgen sobre uma convicção simples: o dado de saúde pertence ao paciente. Em saúde, os dados não são de quem os guarda; são de quem eles descrevem.
Este conteúdo é informativo e destinado a profissionais de saúde e gestores de consultório. Não constitui orientação clínica, jurídica ou contábil.